Busco em mim uma auto-estima há muito tempo perdida, em desconhecidos a validação daquilo que ouço e vejo no espelho, mas teimo em não enxergar. Sou outra pessoa.
Aos 35 virei adolescente novamente. E tento me adaptar ao mundo novo de relacionamentos casuais baseados inicialmente em catálogos humanos. Me sinto fútil, superficial, pequena. Esses sentimentos se transformam em algo maior, mais bonito, mais gostoso, mais ardente. A liberdade de se gostar é algo empoderador. Me sinto empoderada, mulher. Desejada e desejante.
Compro roupas justas, lingeries de renda, mudo o cabelo, pinto as unhas, ouço meus próprios pensamentos, tento desvendar o que gosto e começo a olhar o espelho com olhos de narciso.
Sou inconsequente. Sou demente, mas quem não é?
Descubro que posso ser o que quiser. Não há ninguém aqui pra me impedir. Não há ninguém aqui pra me guiar. Não há ninguém aqui... e isso às vezes me mata por dentro.
Sempre precisei dos outros pra me sentir validada. De repente, muitas seções terapêuticas whatsappianas depois, reconheço que a validação que busco me destrói. Não posso controlar o que os outros querem e o fato de não me quererem não diz nada sobre mim, mas sobre eles. Eles não me conhecem. Alguns não desejam me conhecer, apenas me desejam. E quando saciam essa vontade partem pra outra página do catálogo. Outros me conhecem e descobrem quase todos meus desejos, vontades, fraquezas, defeitos e agonias em uma noite. Sou aberta, sou literal, e o mundo não está preparado pra tanta transparência.
Percebo que também não estou preparada para o mundo, que minha sinceridade é ríspida, dói, assusta. Tem que ser muito forte pra permanecer ao meu lado. Tem que ser muito fraco pra permanecer ao meu lado. Tem que ser como pra permanecer ao meu lado? O que eu quero? Por enquanto, quero arder sempre mais.
A ardência dói quando não é correspondida. É uma sensação que percorre as veias, desce as pernas, sobe até o umbigo. Arrepia. A ardência demanda atenção. A ardência demanda carinho, companhia e disposição. A ardência não vem sozinha, vem acompanhada de toda a minha bagagem, dos meus traumas, dos meus erros e dos meus acertos. A ardência vem acompanhada da maior sinceridade que consigo esconder. E a ardência ainda não achou uma brasa à sua altura. Por vezes, acreditou ter encontrado e se deparou sozinha, sem resposta, entre lágrimas e garrafas de vinho.
O vinho é companheiro fiel da ardência e cumpre fielmente seu papel. São vários estágios, mas a autopiedade é o mais frequente. O vinho também desperta, mas o vinho me faz sentir só e com dó de mim mesma. Perco o controle, falo demais, cobro, me dôo, sou ardente e pedante ao mesmo tempo. Tento envolvê-lo nos meus dramas disfarçados de brasa e calor, mas só o que tenho conseguido é a dor de cabeça do dia seguinte àquela garrafa de vinho esvaziada numa noite só, e só.
Um dia eu aprendo. Ou não. Quem sabe um dia encontro, quem sabe um dia o mundo se adapte às minhas necessidades.
Vou levando com poucas certezas e uma constante, que Ney Matogrosso estava certo, sou ardente e sou demente. Mas quem não é?
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